• Maryse Suplino

Preferências alimentares.



Há alguns anos conheci dois meninos com histórias interessantes acerca de suas preferências no quesito alimentação. Um deles tinha seis anos e o outro quatro anos. Trabalhei com ambos, porém em anos diferentes.


O menino de seis anos comia apenas batatas fritas industrializadas de determinada marca acompanhados de refrigerante de cola. Ele pesava quase quarenta quilos, tinha os índices de colesterol e glicose significativamente elevados. Os médicos haviam determinado a imediata modificação da sua dieta uma vez que sua saúde se encontrava ameaçada.


O outro garotinho tinha apenas quatro anos e estava, havia cerca de um ano, comendo tão somente hambúrgueres e batatas fritas de uma conhecida rede de fast food, os quais conseguia identificar com precisão, impossibilitando as tentativas da família em baratear os custos através do uso de itens substitutos.


Um fato é indiscutível: nenhuma criança nasce comendo fast food. O mesmo vale para tantos outros alimentos peculiares.

Sabemos que pessoas com autismo algumas vezes são seletivas e não apenas quanto à alimentação. Como se instituem essas preferências e, por vezes, chegam a tornarem-se tão intransigentes se inflexíveis a ponto de ameaçar a saúde da criança, jovem ou adulto?


Obviamente, não podemos deixar de levar em conta o que a palavra preferência representa.

Todos nós preferimos certos alimentos em detrimento de outros. A questão aqui colocada diz respeito à frequência e intensidade com que tais preferências se impõem. Esses são dois critérios excelentes para a indicação de que algo está extrapolando limites.

Observando o que ocorre em diferentes famílias posso teorizar, a partir de diferentes histórias que acompanhei. A criança em algum momento demonstra não gostar muito de certo alimento, ou tenta rejeitá-lo. A família oferece outro alimento (batatinha frita industrializada, por exemplo). A criança come feliz. Numa outra ocasião, novamente a criança rejeita o alimento saudável que é oferecido e indica claramente que deseja batata frita. Essa indicação vem acompanhada por choro intenso. A família tenta fazê-la comer. A criança insiste na rejeição. Depois de certo tempo, a família cede. Em diferentes momentos essa cena se repete até chegar o momento em que a batata frita torna-se “o alimento”. Existem variações para essa história, mas, de modo geral, esse é o roteiro.



Questões Sensoriais


Algumas vezes a não aceitação de um alimento, passa por questões sensoriais que envolvem a textura, por exemplo. Esse é um caso diferente porque a criança ou adolescente vai rejeitar apenas os alimentos com a textura incômoda e, mesmo assim, é possível realizar um trabalho de dessensibilização.


Os casos, aqui apresentados como exemplo, envolvem a rejeição para praticamente todos os alimentos, concentrando a dieta em itens muito específicos que, na maioria das vezes não contém as vitaminas, proteínas, minerais, entre outros, que o corpo humano necessita. São situações que, na maior parte das vezes, levam a problemas de saúde.



Revertendo a situação


Como em qualquer caso no qual certo tipo de alimento cause danos, serão necessárias mudanças nos hábitos alimentares instituídos. Quando falamos de pessoas com autismo, sabemos que introduzir mudanças, principalmente em hábitos já há muito arraigados, exigirá

grande esforço, tanto por parte de quem se incumbir de estabelecer as mudanças, quanto por parte da pessoa com autismo que terá de submeter-se a tais alterações.


No caso do menino de seis anos, foi preciso um trabalho de grande perseverança entre os profissionais e a família para a retirada tanto das batatas quanto do refrigerante.

Lembro que a primeira experimentação que ele fez (a qual até hoje me recordo porque ter sido bastante impactante), em muitos meses, de algo que não fosse batata frita, foram dois grãos de arroz que a ele foram oferecidos numa colher de sobremesa na qual se destacava um pedaço de batata frita um pouco maior que os dois grãos juntos. A partir desse ponto foi-se acrescentando pouco a pouco, ao longo de vários meses alimentos diferenciados, sempre na presença da batata frita, até que a mesma pôde ser extinta da alimentação porque o menino tornou-se capaz de comer outros alimentos. A retirada do refrigerante também foi bastante custosa.


Com a mudança na alimentação vieram as melhoras na saúde. O mesmo ocorreu no caso do menino de quatro anos, apesar das intervenções terem sido outras.


O que os dois casos têm em comum é o fato que, apesar das melhoras, tanto para as famílias, quanto para as crianças, foi um árduo processo de conquista.


Que a FORÇA para incluir esteja com você!

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