• Maryse Suplino

Arthur e o infinito


Arthur e o infinito é um média metragem realizado em 2012 por Júlia Rufino que conta a história de uma família que recentemente recebeu o diagnóstico de autismo. Somos conduzidos pela história através da perspectiva da mãe (Maria Tuca Fanchin) de Arthur (Erich Schon). O que de certa forma destaca percepções muito próprias que geralmente são encontradas também em histórias de mães reais de pessoas com autismo.

O filme, em seu recorte, o da descoberta do diagnóstico, pode ser apontado como de grande mérito ao retratar o processo de assimilação tardia – Arthur é diagnosticado com seis anos - pelo qual muitas famílias passam ainda hoje.

Logo nos momentos iniciais da obra, na consulta que revela o diagnóstico, o médico faz uma afirmativa que considero bastante pertinente. Ele diz aos pais que não se trata de um problema, mas de um funcionamento que é diferenciado. E essa fala demarca o espaço em que a narrativa vai operar, onde o foco não é em impossibilidades – comumente relacionadas ao estigma do autismo –, mas na busca de compreender um funcionamento que, mesmo atípico, guarda em si mesmo uma vasta gama de possibilidades como a mãe de Arthur vai perceber.


Narrado pelos olhos da mãe, vamos descobrindo como o autismo se manifesta em Arthur: como aparecem as estereotipias, os comportamentos ritualizados, as dificuldades relacionadas ao sono e as questões relacionadas à alimentação. Desdobra-se também uma subnarrativa onde acompanhamos a solidão da mãe ao se ver assumindo tudo em relação a Arthur. Uma situação comum que precisa ser discutida não apenas cinematograficamente, mas também dentro da relação de casal, assim como familiar. Arthur tem um pai, que é retratado de forma distante e uma irmã que, embora três ou quatro anos mais velha que ele tem dificuldade em entender porque precisa ficar em segundo plano enquanto o olhar de toda a família se dirige para o irmão. Há um momento no qual a menina questiona a mãe que responde de forma direta, explicando que o menino necessita receber muita atenção, mas, ao mesmo tempo, se coloca à disposição da filha.


Esse é um ponto bastante delicado na vida de familiares de crianças que têm autismo e que tem outros filhos. Às vezes a família tende a focar a atenção no filho com autismo e os outros filhos acabam ficando em segundo plano.

Em certo momento, a mãe se pergunta se fez algo errado. E esse ponto do filme nos remete aos aspectos históricos do autismo. Onde uma ideia, bastante difundida nos anos 1970 e 1980, afirmava que crianças nasciam com autismo por conta de uma rejeição dos pais. O ano do filme é 2012 e, já nessa ocasião, a genética se constituía a principal pista para a gênese do autismo. Hoje sabemos que o Transtorno do Espectro Autista - TEA tem 90% da sua origem associada a fatores genéticos. Entretanto, ainda hoje encontro mães e pais se perguntando o que fizeram de errado para ter filhos com autismo.


O filme constrói uma história que vai nos mostrar três elementos centrais:


1) como pode ser uma criança com autismo à medida que Arthur vai se apresentando, se movendo, fazendo as coisas próprias do transtorno. E nesse quesito é preciso destacar que o ator Erich Schon faz um ótimo trabalho. Tendo conhecido centenas de crianças com autismo, posso afirmar que ele consegue representar muito bem (e sem exageros) uma criança de seis anos com autismo.


2) A jornada de uma mãe no contexto da descoberta, passando por diferentes momentos: de angústia, tristeza, medo, mas também de aprendizado e superação.


A mãe aparece estudando e buscando aprender mais sobre autismo para saber lidar com o filho, um caminho, sem dúvida, importantíssimo que muitos pais percorrem. Tendo trabalhado diversos anos com treinamento e orientação de famílias posso destacar o quanto essa busca é fundamental para o avanço das crianças, jovens e adultos com autismo. Mas ressalvo que o apoio profissional é o outro lado dessa jornada, que não deveria ser trilhada sozinha.


É indubitável que a experiência dos pais no dia-a-dia somado a suas pesquisas é um lado da moeda e que o apoio profissional é o outro, uma vez que certo afastamento proporciona, em certa medida, a possibilidade de uma perspectiva um pouco mais generalista e o destaque de procedimentos que podem ser melhor ajustados para o alcance do objetivo primeiro: o avanço das pessoas com autismo.

Num dado momento, a mãe diz que entende o Arthur e resume que é “como se ele estivesse no lugar impenetrável, um quarto escuro e apertado”. Ela afirma que também se encontra nesse cômodo escuro e apertado. Segundo ela, a diferença entre os dois é que ela sabe que tem coisas do lado de fora e ele não.


Muitas famílias (não apenas as mães, mas, sim elas, na maioria das vezes) acabam entrando nesse suposto quarto escuro e apertado junto com os filhos e, aproveitando a fala da personagem, que diz que Arthur não sabe que tem um mundo lá fora (o que para mim é uma questão discutível, mas é a fala da personagem). eu diria que muitas famílias, acabam também esquecendo ou perdendo de vista as coisas que tem lá fora.

Para a saúde dessa mãe e de toda a família, incluindo o filho que tem TEA, é muito importante que a vida continue, tenha propósitos que envolvam outros interesses além do autismo.

É preciso ter uma vida porque ter outros interesses e atividades gera energia vinda de outros lugares. Essa energia positiva se faz necessária para que se possa dar suporte ao amigo com autismo.


3) Uma criança com autismo pode avançar

O último ponto que eu gostaria de apontar diz respeito à aprendizagem e o avanço do Arthur. Em dado momento, a mãe percebe que ele pode aprender.

Como educadora e alguém que acredita que ensino é fundamental, esse viés da história, no qual o menino sai de um lugar onde a mãe fazia tudo pra ele e, aos poucos, vai aprendendo diferentes habilidades toca-me de um modo especial.

Arthur e o infinito é um filme que vale a pena assistir, principalmente para quem tem pouca informação sobre o que é autismo ou pessoas que recentemente receberam o diagnóstico dos filhos. Trata-se de um filme instrutivo, bastante realista que pode ser assistido AQUI!


Que a FORÇA para incluir esteja contigo!

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