• Maryse Suplino

Série Inclusive... INFO!



Para responder a essa pergunta, é necessário estabelecer que a mesma está dirigida aos comportamentos que são visíveis e, portanto, perceptíveis aos demais. Contudo, o comportamento inflexível é a expressão de um pensamento inflexível.


Em se tratando de pessoas com TEA, é possível observar esse tipo de comportamento em diferentes espaços e situações. Inclusive, essa manifestação ocorrer em contextos diversos é uma das características que compõem o diagnóstico do autismo. O DSM V (2013) se refere a padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. As manifestações práticas são a dificuldade para trocar de ambiente, assunto, brinquedo, posição, experimentar o novo de forma geral.


O nível de inflexibilidade, ou melhor dizendo, a intensidade da mesma varia. Há pessoas com autismo mais inflexíveis que outras.

O modelo das Funções Executivas do cérebro apresenta uma perspectiva que nos auxilia no entendimento dessa inflexibilidade. As Funções Executivas são responsáveis pelos processos cognitivos, comportamentais e emocionais do indivíduo. São processados no córtex pré-frontal. São habilidades cognitivas que nos permitem controlar e regular pensamentos ações e emoções diante do leque de opções que a vida oferece a cada momento.



As Funções Executivas estão divididas em três categorias:


  • Autocontrole ou Controle inibitório (que atua no controle da impulsividade e favorece a concentração);

  • Memória de trabalho (que organiza as informações pré-existentes de modo a conectá-las e planejar uma atividade) e

  • Flexibilidade (que favorece o pensamento criativo, adaptação à novas demandas e possibilidade de resolver problemas).


Uma situação vivenciada há alguns anos ilustra a dificuldade em adaptar-se e resolver problemas oriundas da inflexibilidade cognitiva. Eu estava no portão do Instituto Ann Sullivan do Rio de Janeiro acompanhando a entrada de um grupo que seria atendido naquele horário. Um dos atendidos, um adolescente que tinha o costume de subir a rua pela calçada do lado esquerdo da mesma, vinha chegando. Nesse dia havia uma caçamba com entulho ocupando todo espaço da calçada num determinado ponto, interrompendo seu caminho, a cerca de dez metros do portão.


Ele subiu até deparar-se com a caçamba. Chegando ali ficou parado de frente para o objeto. Depois de alguns segundos começou a pular e agitar as mãos, sem mover-se para trás ou para adiante. Não sabia como continuar seu caminho interrompido pela presença de um obstáculo. Aguardei uns poucos minutos e depois comecei a dizer-lhe que havia como continuar o seu trajeto.


Coloquei-me numa posição na qual ele podia me ver, mais adiante da caçamba, entre a mesma e o portão. Chamei por ele e o incentivei para continuar dando, ao mesmo tempo através de gestos, dicas de que poderia contornar o obstáculo. Depois de alguns minutos ele conseguiu contornar a caçamba, alcançar o outro lado da calçada e continuar no seu caminho até o portão da instituição.


Sem dúvida, a flexibilidade é uma habilidade importante para a sobrevivência do ser humano. Diariamente experimentamos situações nas quais ela nos é requerida.

Uma coisa importante a ser frisada é que a flexibilidade de pensamento e, por conseguinte, no comportamento pode ser treinada, exercitada.

Imagine uma pessoa aprendendo a fazer a postura do guerreiro da yoga, a posição exige músculos preparados para sua execução. Logo tal posição não é alcançada no primeiro dia de exercício. Os músculos precisam aprender. Da mesma forma uma pessoa com autismo precisa ser levada a experimentar situações nas quais a mudança de um ponto para outro se faça necessária, seja alternando, por exemplo, a posição de uma carteira para outra em sala de aula, seja trocando um brinquedo por outro, experimentando um novo tipo de alimento, falando sobre um novo assunto, visitando um local novo, entre tantas outras situações.


Logicamente, a ideia aqui é, da mesma maneira que não é possível forçar um músculo para executar um movimento totalmente novo numa posição da yoga, também não é indicado forçar uma mudança brusca ou uma transição abrupta. A ideia é pouco a pouco ir exercitando nas diversas situações a flexibilidade para que pouco ela se torne mais forte e presente.


No próximo post apresentarei a segunda parte da resposta, falando um pouco acerca da Teoria da Mente que também apresenta uma perspectiva para compreensão da inflexibilidade presente no comportamento das pessoas com TEA. Até lá.



Que a Força para incluir esteja com vocês!

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