• Maryse Suplino

Irmãos em Quatro tempos



Li certa vez que o irmão é alguém que estava lá enquanto você crescia. Significa que foi alguém com quem você vivenciou muitas coisas. Compartilharam pessoas importantes, momentos significativos, objetos de interesse... Também foi alguém com quem você competiu por essas mesmas coisas.


Há muita complexidade no tecido que estrutura a relação entre os irmãos. Minha intenção não é aprofundar a análise desses aspectos, mas contar algumas histórias de irmãos que em algum momento da vida encontrei pelo caminho. Irmãos cuja particularidade do elo era o fato de que um tinha autismo o e outro tinha o desenvolvimento típico.


As histórias vão passar por quatro tempos diferentes da vida: Infância, Adolescência, Idade Adulta e Envelhecimento.



TEMPO 1 - Infância: A irmã tutora


Quando conheci o amigo com autismo cuja história contarei, ele tinha cinco anos e sua irmã tinha três. O amiguinho não era verbal e tinha muitos comportamentos estereotipados. A pequenina era bastante inteligente e um pouco mais madura do que o esperado para crianças daquela idade.


Ela percebia as dificuldades do irmão e adotava a função de instrutora. Em situações nas quais ambos estavam presentes, a irmã assumia o papel de resolver todas as questões para o irmão, mas, ao mesmo tempo, apesar de tão pouca idade, assumia um papel autoritário e tutelava o irmão de modo implacável, empurrando o alimento por entre seus lábios, puxando-o pelo braço de um lado para o outro, tomando-lhe os brinquedos ou, por vezes, impondo-lhe jogos e bonecos aos quais ele resistia.


Por três anos foi possível acompanhar essa família o que oportunizou um trabalho junto aos dois irmãos de modo a ensinar à irmã caçula que, apesar de o irmão não falar, ele também era uma criança como ela. Que ela não gostaria que alguém introduzisse alimentos à força em sua boca (entre outras atitudes), por isso essa também não seria uma situação confortável para seu irmão. Aos poucos foram trabalhadas noções de respeito com a pequena através de histórias infantis, situações compartilhadas com seu irmão mediadas por adultos.


Aos poucos ela começou a aprender e a ter uma maior tolerância quanto ao tempo do irmão para responder. Através da busca de atividades que fossem de interesse mútuo (ainda que realizadas inicialmente por poucos minutos que foram aumentando com o passar do tempo) os dois foram construindo uma relação de amizade e companheirismo. Aos seis anos, ela compreendia que o irmão, ainda que um pouco diferente, era uma criança como ela e era seu companheiro, não um objeto.



TEMPO 2 - Adolescência: O irmão amigo


Essa é a história de dois irmãos. Ambos eram meninos. Um tinha treze e o outro onze anos. O mais velho tinha autismo.


Antes de conhecer o irmão mais novo os relatos a seu respeito vinham através da mãe. Ela contava que o filho escondia dos amigos que tinha um irmão. Nunca trazia amigos para casa e na escola dizia ser filho único. Com esse irmão o trabalho foi iniciado em casa, uma vez que ele não admitia ir a um local externo para realizar alguma atividade em conjunto com o irmão.


Nesse caso uma estratégia que deu certo foi, em lugar de apenas apresentar atividades para os dois realizarem, durante algumas semanas separar um tempo inicial para realizar atividades apenas com ele, ouvi-lo, fortalecer sua autoestima à medida que ele demonstrava suas habilidades motoras que eram notáveis. Pouco a pouco o irmão com autismo foi sendo introduzido em atividades que os dois poderiam realizar juntos. Pontos fortes do irmão com autismo foram apontados, bem como os aspectos nos quais ele precisaria de ajuda. Em cerca de quatro meses o relacionamento dos dois havia melhorado bastante. Até o final daquele ano o irmão de onze anos admitiu na escola que tinha um irmão mais velho e que ele tinha autismo.


Acompanhei essa família por cinco anos e foi muito gratificante testemunhar a transformação que ocorreu naquela casa. O irmão mais novo tornou-se um jovem de dezessete anos com o qual o irmão podia contar. Tornou-se um amigo.



TEMPO 3 - Idade Adulta: O irmão desconectado


Um casal conheceu-se já na faixa dos trinta anos. Casaram-se e comemoraram bastante o nascimento de um filho quando o pai estava com mais de quarenta. Quatorze anos depois nasceu outro filho. Contudo, esse nasceu com TEA e deficiência intelectual.


A partir do nascimento do filho mais novo, o casal viu-se envolvido com as demandas trazidas por ele. O irmão mais velho frequentava a escola, resolvia as tarefas escolares sozinho. Tentava ocupar os pais o mínimo possível. Ao mesmo tempo, apesar de viver na mesma casa, não convivia com irmão, mal se aproximava dele.


Aos dezoito anos iniciou o curso universitário. Aos vinte e quatro tinha um emprego estável e se casou. Foi viver em outra cidade.


Trinta anos mais tarde os pais faleceram e coube ao mais velho a tutela do irmão. Ele se encontrava completamente perdido acerca do que fazer com seu irmão. Não tinham vínculo. Não se conheciam.



TEMPO 4 - Envelhecimento: Irmãs que envelhecem juntas


A história dessas duas irmãs chamou minha atenção. A história se passa no tempo da vida hoje conhecido como terceira idade. Ambas estão envelhecendo. A irmã com TEA tem 55 anos e sua irmã mais velha tem 62 e está aposentada.


Nos últimos trinta e cinco anos, a filha mais velha, apesar de não morar na mesma casa, manteve contato com a irmã e a mãe. Em alguns finais de semana ia até a casa da família ou buscava as duas para um almoço em sua casa.


A mãe que sempre se encarregou da mais nova, faleceu. Depois sua morte, as duas irmãs passaram a viver juntas. Já se passaram dois anos. As irmãs contam que estão aprendendo uma sobre a outra. Aprendendo coisas novas que possam compartilhar.


Quando perguntei para a irmã com autismo o que achava de viver com a irmã, ela resumiu: “Gosto dela”. Ao indagar à irmã que está no desenvolvimento típico o que desejava para sua irmã, ela respondeu: “As coisas que pessoas nessa idade almejam e devem desfrutar”. Que o que ela espera de agora em diante é que possam envelhecer juntas com saúde e companheirismo.

Que a FORÇA para incluir esteja com você!

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