• Maryse Suplino

Por quem os sinos dobram?

"Imagine que não há países; isso não é tão difícil de fazer..."


Esses versos fazem parte de uma das músicas mais conhecidas de John Lennon. Ao refletir sobre eles, penso o quão atuais eles parecem cinquenta anos depois.


Nos dias atuais, em meio à pandemia que assola o mundo, os diferentes países estão em guerra. Países ricos, pobres, emergentes... todos combatendo um mesmo inimigo. Nesse texto quero falar sobre as guerras e sobre a principal consequência das mesmas: a perda das vidas humanas.


Desde que nascemos ouvimos rumores de guerras. Assistimos guerras reais, a partir das narrativas de jornalistas e através dos noticiários de televisão. Acompanhamos guerras fictícias que, em nome do entretenimento, promoveram a morte de milhares de pessoas de forma mais ou menos violenta, mas que guardavam a natureza ficcional, fantasiosa que, por mais que nos afetassem, não aconteceram de fato. Passado algum tempo depois de assistidas, eram facilmente esquecidas.


Nomes de diferentes países em guerra passaram, ao longo dos anos, diante de nós. Guerras antigas. Guerras recentes. Afeganistão, Síria, Israel, Irã, EUA, Vietnã, Uganda, Palestina, Ruanda, Inglaterra.... Soubemos que houve milhares de mortes e ainda há.

Como tais perdas nos impactavam?


Talvez, a distância geográfica, o não reconhecimento dos idiomas levavam a uma não identificação com essas pessoas, com as vidas que se perderam. Continentes diferentes. Vítimas tão distantes que soavam como obras de ficção...


As guerras ceifaram milhões, ocorridas em espaços geográficos específicos, distantes em alcance pela maior parte da população do planeta. Os números de mortos da pandemia, cerca de 372.000 podem não parecer tão expressivos, à uma primeira vista. Por que então parecem mais aterradores?

Imagine que não há países disse Lennon. Isso não é tão difícil de fazer no momento que estamos vivendo. A humanidade como um todo, como uma só raça enfrenta agora o mesmo inimigo. Os cinco primeiros meses do ano 2020 têm nos mostrado que todos e qualquer um pode ser a próxima vítima.


Na famosa indagação de John Donne, imortalizada por Hemingway, “Por quem os sinos dobram?” o autor faz menção ao badalar dos sinos, costume nos séculos passados (ainda presente em algumas cidades pelo mundo) para passar informações sobre acontecimentos importantes à comunidade como os falecimentos ocorridos. A pergunta aponta para a tentativa de identificação, a partir da linguagem dos sinos, de quem partiu desse mundo. No mesmo poema ele afirma que cada homem é uma partícula do continente. Uma parte do todo. Assevera que a morte de qualquer homem diminui o outro, porque somos parte do gênero humano.


Em nossos dias, trezentos e setenta mil vidas perdidas impactam. E deveria. Não importa se são dezenas, centenas de milhares ou milhões. São vidas.


A globalização fortalece a construção de sentido de unidade para grande parte dos habitantes do planeta tal qual Lennon cantou. A circulação rápida das pessoas às diferentes partes do mundo nos trazem a ideia de uma grande aldeia global, de um mesmo território. Uma aldeia pela qual o vírus caminhou por meio dos voos das empresas aéreas e dos cruzeiros marítimos e continua caminhando, expandindo seu alcance. Há também a percepção de que o que está acontecendo está atingindo a humanidade como um todo, pela rapidez com a qual a informação é disseminada, o que aproxima a realidade e a expõe em tempo real, promovendo a experiência de forma coletiva.


Nesses últimos cinco meses os sinos da aldeia global têm soado incessantemente. São milhares de vidas que se despedem do mundo. Talvez ainda existam aqueles nos quais os sons dos sinos não encontrem eco. O poeta Jorge Vercillo adverte: “Quando a noite aparecer, lembra, todos nós somos um”. Por isso não pergunte por quem os sinos dobram. Eles repicam por ti e por mim. Eles soam por nós.

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