• Maryse Suplino

Resiliência


Tenho pensado nesses dias de pandemia sobre duas realidades que se complementam. A primeira diz respeito ao momento presente e ao fato de estarmos vivendo esse período adverso no gerúndio. Estamos experimentando sensações inéditas, pensamentos, em certas ocasiões, assustadores e sentimentos desconcertantes. A segunda realidade está relacionada ao tempo futuro. Aquele que não podemos alcançar agora, mas que se avizinha na qualidade daquilo que está por vir. É uma aproximação esquisita e nebulosa porque é imprecisa. Não temos uma ideia exata de quando vai chegar (sensação perturbadora para quem está acostumado a crer que tem a vida sob controle). Sabemos apenas que o novo momento-futuro vai chegar no instante em que o presente passar.


Entendi que os diferentes aspectos dessa pandemia se assemelham mais aos desafios presentes numa corrida de resistência que aqueles existentes numa competição de velocidade. Por isso quero falar de resiliência.


Resiliência é um conceito emprestado da Física que, quando aplicado ao gênero humano, significa a capacidade do indivíduo em lidar com situações adversas e superar pressões.


Na Física a elasticidade é manifesta quando um material é submetido a solicitações externas a si mesmo. Nesse momento o material perde sua conformação inicial. O nível de elasticidade se mostra na capacidade que o mesmo tem para retornar sua forma e dimensões originais. Já a resiliência se apresenta no quanto o material consegue absorver da energia a qual é submetido sem se romper.


Trazendo esses conceitos para o campo do humano, poderia dizer que os mesmos falam de superação, resistência e flexibilidade, apenas para citar algumas das características. A superação seria a capacidade de recuperação de uma pessoa perante uma situação adversa ou um obstáculo. Sua resistência e força provadas na capacidade demonstrada para resistir ao choque, bem como a flexibilidade refletida no nível de adaptabilidade e versatilidade do sujeito.


Lembro de algo que ouvi muitos anos atrás. A mensagem dizia que, na vida, às vezes, o mais importante é você seguir se movimentando. Entendendo que há momentos nos quais é impossível correr. Até mesmo andar se torna insuportável. A mensagem afirmava que ainda que a pessoa se arrastasse, o movimento que a levava adiante deveria continuar. A lembrança dessa mensagem evocou em minha memória a imagem icônica de uma maratonista que, a poucos metros da linha de chegada, apresentava um cansaço extremo. Era Gabrielle Andersen que nos Jogos Olímpicos de 1984 deixava uma imagem emblemática sobre resiliência: com um enorme esforço conduziu seu corpo, um passo após o outro, com os músculos das pernas endurecidos pelas câimbras (jogando o corpo para o lado esquerdo em desengonçadas tentativas de equilíbrio), até a linha que marcava o final da corrida. Chegou em trigésimo sétimo lugar e foi vencedora. A vitória consistia em ultrapassar a linha de chegada.


Quero falar sobre chegar. Alcançar o final de uma jornada, de um desafio. Acredito que para isso se faz necessário um esforço no sentido de conhecer a si mesmo e saber quando acelerar e quando frear. Diz respeito a encontrar paz no caos. Não se trata de produzir para fora, mas para dentro. Tem pouca relação com produtividade e resultados visíveis aos demais. Gastar energia tentando forjar o habitual e costumeiro talvez não seja a estratégia mais acertada. Vejo pessoas buscando exibir uma estabilidade baseada na manutenção de hábitos anteriores à pandemia, numa simulação advinda da exigência de normalidade. Vã tentativa. Nada está normal. Nada do que estamos vivenciando é corriqueiro ou cotidiano.


Voltando à Física, lanço mão do conceito de resiliência ajustado ao de elasticidade quando, ao ser submetido às solicitações do momento atual, o “material humano” perde sua configuração primária. Agora, penso eu, a flexibilidade está sendo grandemente requisitada, até mesmo exigida. Esse período vai revelar o quanto alguns de nós conseguem se desprender das configurações originais, considerando, inclusive, a possibilidade de não retornar mais às dimensões originais, mas sem se romper.


Adaptar nossas vidas, hábitos e atividades ao ritmo que nos foi imposto pela quarentena oriunda da pandemia talvez seja a saída mais inteligente por agora. Entendam, não estou apregoando a auto condescendência ou proclamando os benefícios da procrastinação. Falo do reconhecimento dos nossos próprios limites atuando como guia para redimensionarmos o quanto de esforços devemos dirigir a esta ou aquela ação. Penso ser fundamental guardar com sabedoria energia e criatividade para o que está por trás da porta que em algum momento nos será apresentada a qual terá o cartaz "Fim da pandemia". Quando cruzarmos essa porta, vigor e engenhosidade serão necessários ao novo cotidiano, à nova vida, ao novo ordinário.

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