• Maryse Suplino

Sentimentos



Seria possível definir o que uma pessoa sente, como sente e quão profundamente sente?


Nossa tentativa de encaixar os sentimentos em categorias padronizadas aponta nossa propensão de atribuir aos mesmos características de objetos. Os objetos possuem matéria, volume, massa. É possível defini-los através das características que eles possuem. Tais características possibilitam definirmos sobre o que estamos falando e também nos ajudam a entender como tal coisa afeta aos homens e como interfere no mundo.


Seu amor por ela é profundo? pergunta o personagem de uma comédia romântica ao seu melhor amigo. O interrogado responde -Sim. Ao escutarmos, tanto a indagação quanto a resposta, damos sentido às mesmas, compreendemos. Ao pensarmos na palavra profundo somos remetidos ao substantivo profundidade que é atributo do que é profundo, nos que leva a profundeza e tem a ver com mergulho, movimento para dentro de algo.


Mas, na verdade, o que a afirmativa “Sinto um amor profundo por ela” quer dizer? Como sabemos o que a pessoa quis comunicar com essa afirmação?

Vivenciar um sentimento é ter uma experiência subjetiva da emoção.

A emoção é a resposta fisiológica, química e neural que o corpo apresenta frente aos estímulos externos. Nós, seres humanos, nomeamos a experiência subjetiva que advém da interpretação que o cérebro faz das emoções que atravessam nossos corpos.


Há uma convenção linguística que nos ajuda a traduzir em palavras o que sentimos. São um conjunto de substantivos, adjetivos, metáforas...


Esse acordo linguístico varia conforme o idioma. Saudade só existe em português. Quando um falante desse idioma diz tal palavra para expressar o que está sentindo, os outros que estão imersos no mesmo universo linguístico reconhecem não apenas o som, a fonética do substantivo, mas também toda a carga de significados que a palavra traz. Se alguém dissesse a um falante da língua inglesa não conhecedor do português I fill saudade her, o ouvinte inglês não entenderia do que se trata, embora compreendesse a parte da frase Eu sinto *** ela. Para traduzir a ele algo próximo do significado de saudade de uma pessoa, nesse caso uma mulher, a partir do seu universo linguístico, seria necessário dizer I miss her (Eu sinto falta dela). Em inglês, alguém também pode sentir falta do jantar (I miss dinner). Em português, não sentimos saudades da refeição servida à noite. Podemos, contudo, sentir falta da mesma.


Sentir é uma coisa. Comunicar aquilo que se está sentindo é algo completamente diferente e muito mais complexo. Por diversas vezes somos incapazes de nomear (identificar, dar sentido) ao que estamos sentindo. Apenas sentimos e com nossas manifestações fisiológicas, comportamentos e ações expressamos aquilo que estamos vivenciando sem conseguirmos comunicar através das palavras.

Não poder dizer o que se sente é diferente de não poder sentir.

Quando alguém não domina completamente um código linguístico, não dispõe dos recursos necessários, as ferramentas essenciais para compartilhar aquilo que pensa ou sente. Na verdade, até mesmo a estrutura e a organização do pensamento (que é linguagem) ficam comprometidas.


A construção de sentido para emoções e sentimentos passa pelo social. É construção da linguagem numa perspectiva ampla. É tão verbal, quanto não verbal. Se estabelece pela compreensão não somente das palavras, como também pela interpretação (que é atribuição de sentido) das expressões faciais e corporais dos demais.

É uma construção multilateral que se dá pouco a pouco. No outro reconheço o que estou sentindo ou o que poderei sentir em algum momento.

A tristeza que o outro expressa, sentida e nomeada, ensina às crianças o que é tristeza. A alegria, o medo, a raiva... todos os sentimentos e emoções que pelos outros são manifestados, identificados e nomeados levam ao posterior reconhecimento e nomeação por parte daqueles que estão imersos no mesmo universo conceitual e linguístico.


Ter emoções e sentimentos é parte da nossa natureza como humanos. Classificar, categorizar, nomear os mesmos são habilidades aprendidas no e com o social.


O fato de, por vezes, não conseguir expressar com palavras o que se sente, não desqualifica o sentir. Vamos retomar a cena do filme que apresentei no começo do texto com uma modificação no diálogo.


Seu amor por ela é profundo? pergunta o personagem de uma comédia romântica ao seu melhor amigo. O interrogado responde – Não sei o que você chama de amor.


Deixo uma interrogação para você, leitor. O que a resposta dada pelo personagem ao questionamento do amigo nos indica? Que ele não sabe nomear o que sente ou que ele não sente nada pela namorada?


Que a força para incluir esteja com você!

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