• Maryse Suplino

Teoria da mente, empatia e o coronavírus



Usualmente, ao iniciar uma palestra sobre teoria da mente, na tentativa de introduzir os ouvintes ao conceito que desejo discutir, pergunto: “Quem aqui pensa?", “Quem tem a consciência de que pensa?". E assim por diante.

A ideia é levar os ouvintes à compreensão de um dos conceitos mais interessantes, na minha opinião, criados para explicar parte do funcionamento de uma pessoa com autismo, mas que está presente em todas as pessoas.

Ter uma teoria da mente, em sua primeira ordem (chamada crença) é, segundo Baron-Cohen (1996) ser capaz pensar em um objeto ou pessoa sem a sua presença. Entendo essa proposição como o indivíduo ser capaz de reconhecer a autoria de seus próprios pensamentos e ideias como produção autônoma, particular.

Avançar para a segunda ordem da teoria da mente nos possibilita pensar que o outro também pensa (tem crença). Pode, portanto, pensar coisas diferentes de nós por serem tais ideias e pensamentos advindos de outras origens que não de nós mesmos.


Daí se origina no indivíduo a possibilidade de entender e aceitar que as outras pessoas pensam diferente dele. Que não constitui a única forma de pensamento vigente. E, tentando um esforço ainda um pouco maior, é o que o levaria a perceber que o outro fala de outro lugar, portanto, para entende-lo melhor, seria necessário conhecer aquela posição (a do outro). Sair do meu lugar.

Quero agora fazer uma convergência entre a concepção de teoria da mente e empatia.

Empatia é um conceito bastante conhecido das pessoas que convivem com o universo de discussão sobre autismo. Colocando de um modo muito simplificado, a empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro. Sentir o que outra pessoa sentiria numa determinada situação. É a compreensão ou percepção dos estados emocionais dos outros, além dos seus próprios.

Hoje quero dirigir esses dois conceitos ao momento que estamos vivendo com a pandemia do corona vírus. Em minhas palestras costumo contar histórias e dar exemplos de pessoas comuns que têm dificuldades para modificar seus pontos de vista, de olhar através do olhar do outro, sempre no intuito de levar os interlocutores a terem uma noção mais aclarada de como funciona a teoria da mente.

Ilhada em minha casa, sou informada através de conversas à distância que, em algumas famílias e espaços compartilhados, está sendo difícil convencer a alguns de seus membros da importância de todos fazerem a higienização constante das mãos, por exemplo. Fico sabendo do álcool em gel esgotado, falsificado, do esvaziamento do paracetamol das prateleiras...


A pessoa não compreende que sua atitude vai refletir no outro e que, apesar de ela não acreditar, aceitar ou concordar em fazer, não termina nela. A ação é dela, mas tem impacto no outro. Vai além dela.

Ao mesmo tempo, recebo notícias de grupos de jovens organizando kits para distribuição entre as crianças das comunidades carentes para que não fiquem ociosas dentro de casa. Vejo campanhas na internet para angariar itens básicos de higienização para serem distribuídos às pessoas que não têm. Sou notificada acerca dos grupos que estão se mobilizando para ir às compras no lugar das pessoas mais velhas que estão impedidas de sair e casa. Entender o que é teoria da mente e empatia nesse contexto torna-se fácil. Vou simplificar ainda mais os conceitos. No caso do primeiro, basta cada um de nós exercitar o deslocamento de nosso próprio lugar e tentar nos situar, ainda que por pouco tempo, no território do outro.

Quanto ao segundo, basta apenas, a partir da compreensão do lugar onde o outro se encontra, tratá-lo como gostaria de ser tratado se estivesse experimentando as mesmas circunstâncias.


Que a FORÇA para incluir esteja com vocês!

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