• Maryse Suplino

Volta às aulas, educação especial e pandemia


Durante cerca de dez meses do ano 2020 nos perguntávamos, justificadamente, como seria o cenário depois da pandemia. Hoje, transcorrido quase um ano desde o início desse desastre sanitário de proporções mundiais, descobrimos que não existe ainda um cenário pós pandemia, mas sim um panorama no qual a pandemia já é conhecida pela sociedade e, no caso de algumas pessoas, naturalizada.


Em certo momento houve uma interrogação sobre a saída do isolamento que, de alguma forma, inauguraria a entrada num novo patamar de vida em sociedade. O isolamento (que não ocorreu da mesma maneira) diluiu-se, com o passar dos meses, nas diversas localidades do Brasil e as atividades hoje seguem em meio a notícias sobre vacinas, bandeiras indicadoras da gravidade da doença, fechamento de espaços, entre outras. O momento no qual a pandemia chegaria ao fim, dando início ao que se chamou “novo normal” parece distante. O que temos são, por parte de algumas pessoas, ações preventivas como o uso contínuo de máscaras, afastamento social, uso do álcool para limpeza das mãos e objetos; por parte de outras, vemos ações baseadas na crença de que as coisas seguem normais, como se nada estivesse acontecendo com locais aglomerados, pessoas sem máscaras, etc. e, em meio a tudo isso, a contaminação contínua pelo novo corona vírus, incluindo algumas mutações do mesmo.


No ano passado considerei pertinente uma discussão que incluísse as pessoas com autismo e as que têm deficiência intelectual no contexto social definido pela presença da covid-19. Reapresento alguns pontos da mesma por considerar que ela continua relevante, sobretudo no momento atual. É fato que não temos mais um distanciamento físico tão marcante quanto aquele vivenciado no primeiro semestre de 2020. Justamente por isso, os protocolos estabelecidos relacionados a cuidados que precisam ser seguidos para prevenção da contaminação pelo novo corona vírus devem continuar. Estamos nos espaços sociais, nos lugares públicos de outra maneira. É preciso avaliar e reaprender como estar em locais como cinemas, teatros, escolas, universidades, lanchonetes onde, durante algum tempo não poderemos nos sentar muito próximos. Vejo como fundamental a discussão acerca desse processo num contexto que contemple a inclusão de pessoas com autismo (e também as que têm deficiência intelectual). Tendo acompanhado discussões sobre os protocolos e orientações oficiais para, por exemplo, o reingresso dos alunos nas redes públicas e particulares do Brasil, creio ser necessária uma discussão que envolva o cenário social mais amplo, configurado por todos os espaços aos quais as mesmas tenham acesso, inclusive o escolar (incluídas em escolas regulares ou atendidas em escolas especiais).


Com respeito às pessoas com autismo e/ou deficiência intelectual, considero que o eixo central para a introdução gradual das mesmas nas atividades do dia a dia no contexto que vivemos, incluindo as escolares, é o ensino. O ensino que se dá nas salas de aula, mas não apenas nestes espaços. O ensino para a vida em meio a pandemia.


Mas que habilidades ensinar? O conceito de habilidade funcional (LeBlanc, 1990) tem relação com as habilidades a serem ensinadas no contexto da pandemia, uma vez que assevera que as mesmas devem ter utilidade para aplicação no dia a dia e, consequentemente, resultem numa maior possibilidade de inclusão do aprendiz na vida. Em tempos pandêmicos tal definição nos ajuda a identificar o tipo de habilidade que deve fundamentar o ensino a tais pessoas. A partir das orientações sugeridas nos protocolos das agências especializadas em saúde, a OMS, no âmbito internacional, e a Fundação Oswaldo Cruz, no âmbito nacional, estabeleço nove eixos a partir dos quais serão elencadas habilidades específicas apresentados no documento Saindo da pandemia no qual baseei o texto dessa postagem.


Inclusão de pessoas com autismo e/ou deficiência intelectual na vida é o objetivo central do meu trabalho. Tal inclusão envolve, evidentemente, áreas como cuidados próprios, locomoção, alimentação, entre outras. Considerando o contexto pandêmico, fica clara a necessidade de um trabalho específico para trazer novos aspectos dentro de cada uma dessas áreas de maneira que seja possível estabelecer como ensinar pessoas com autismo e/ou deficiência intelectual de modo que elas realmente possam desenvolver as habilidades necessárias para estar incluídas numa sociedade que sofre os impactos da pandemia. Tais habilidades deverão instrumentalizá-las, prepará-las acerca do agir que, nesse caso, promoverá a autoproteção. A utilização das habilidades básicas que compõem as normas de prevenção e autoproteção da covid-19 se estabelece como condição indispensável para estar no mundo de forma segura e, ao mesmo tempo, inclusiva.


É importante também o ensino de habilidades que levem à construção do conhecimento que aponte para o entendimento de que existe um vírus que é invisível e que para se proteger se faz necessária a realização dos procedimentos ensinados. Trata-se, portanto, de mais que ensinar apenas, por exemplo, a lavar as mãos, mas fundamentar tal aprendizado numa aprendizagem (conhecimento) que deve ser construída em conjunto. Nessa medida, o ensino de habilidades que já fazem parte de um rol conhecido de autocuidados assume uma nova dimensão. No texto citado acima aprofundo a discussão a esse respeito, debatendo como mediar a construção do conceito de microscópio por pessoas com autismo e deficiência intelectual.


No cenário brasileiro atual, no qual são discutidas possibilidades de retorno às aulas, penso que no caso da educação especial é fundamental que os profissionais priorizem o ensino de habilidades funcionais que as preparem, entre outras coisas, para uma vida segura em meio a pandemia.


Que a Força para incluir esteja com vocês!!

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